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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Paraciclismo II: O sonho de bronze de Costa

Se a primeira metade de 2017 do paraciclista Luis Costa foi repleta de viagens e medalhas, o trimestre que se seguiu não foi menos vazio de histórias para contar, quase todas elas com final feliz, em especial a última, no âmbito dos Campeonatos do Mundo da África do Sul, onde alcançou o que considerou como um sonho. Mas vamos por partes...

Fim-de-semana de bronze ao peito!
Retomemos essa aventura onde parámos na anterior edição, com uma segunda metade de 2017 que começou com nada menos do que duas subidas ao pódio, num evento da Taça do Mundo em Emmen (Holanda), resultados que, apesar da sua dimensão, não o satisfizeram por completo!

A primeira medalha de bronze decorreu do 3º lugar obtido no Contra-Relógio, prova em que ficou a apenas 58 segundos do vencedor, o holandês Tim de Vries, seu eterno adversário! “Confesso, por isso, que me soube a pouco, embora ficasse satisfeito pela minha evolução em Contra-Relógios, já que fiz as duas voltas ao percurso sensivelmente iguais, a uma média final de 40 km/h.
Segundo o lema “Esforço, dedicação, devoção e glória” do seu Sporting Club de Portugal, “clube que orgulhosamente represento”, apostou em fazer melhor no dia seguinte, na Prova de Fundo, mas também aqui foi o resultado foi idêntico, numa jornada em “fiquei um pouco frustrado pela forma como deixei escapar a prata, pois trabalhei muito durante esta prova para tentar alcançar o Tim, que depois fugiu sem que o conseguisse alcançar. Percorri os últimos 100 metros com algum avanço sobre Alfredo de los Santos, mas infelizmente os braços não aguentaram o esforço final e ele passou-me mesmo em cima da linha de chegada”, concluindo com um desalentado mas real desabafo de que “só acaba no fim, é essa a realidade!”




Campeão Nacional, mas este ano sem certificado!
De regresso a Portugal, Luis Costa abraçou, depois, os Campeonatos Nacionais de Almeirim, alcançando duas vitórias – no Contra-Relógio e na Prova de Fundo – na sua classe. Dois resultados que, em condições normais, lhe valeriam o seu novo título de Campeão Nacional.

Só que, este ano, fruto das novas regras da modalidade, Luis Costa não pode ser declarado Campeão Nacional, já que é sendo o único atleta da sua classe, não tendo, por isso, direito a receber e usar na próxima época a camisola de Campeão Nacional. “É injusto? Talvez, mas regras são regras e não as vou contestar. Mas, a partir de agora, vou competir com o equipamento verde e branco do meu clube, algo que muito me orgulha de igual modo”.
A fechar o ano nacional de competições, disputou em Albergaria e Alcobaça as duas derradeiras provas da Taça de Portugal, vencendo em ambas a sua classe. “Sobretudo aproveitei para fazer novos testes à condição física, ficando muito satisfeito com a minha forma, fruto das muitas ‘tareias’ que levei nas semanas anteriores, numa altura em que já ansiava pelos Mundiais.”


O corolário de toda uma época
E eis que chega o ponto alto da temporada, o Campeonato do Mundo de Paraciclismo da Africa do Sul, em Pietermaritzburg, evento que começou com uma série de percalços mas que viria a tornar-se no seu maior orgulho, encerrando toda uma época de esforço e dedicação.

“Não começou, de facto, nada bem essa participação, primeiro com um problema mecânico na handbike durante os treinos oficiais para o Contra-Relógio. O desviador de velocidades ‘decidiu’ ser esse o momento ideal para deixar de funcionar em condições, o que me limitou as performances, não deixando engrenar alguns carretos mais altos, essenciais nas descidas de grande inclinação desse percurso”. Em resultado disso, o atleta luso viria a chocar violentamente com um adversário, “quando seguia a mais de 40 km/h. Ele não me viu e virou à direita no momento exacto em que eu o ultrapassava!” Como resultado Luis Costa, capotava e resvalava de costas no asfalto. “Apesar disso e milagrosamente, a handbike não sofreu nem um risco para além dos que já tinha”.

Vá que as redes sociais também servem para pedidos de ajuda e um proprietário de uma loja de bikes local lhe arranjou um desviador electrónico novo para que, no dia seguinte, ele pudesse fazer o reconhecimento ao percurso da Prova em Linha e depois, os eventos oficiais. “Foi só montar e testar, funcionando a 100%, sem necessidade de nova programação do sistema. Fiquei delirante, agradecendo aos anjos que lá em cima olham por mim, mesmo quando me deixam esfolar as costas todas no alcatrão”.
Depois de tantos problemas, Luis Costa apresentou-se à partida “decidido a provar que todo o investimento em tempo, compreensão, dinheiro e trabalho de todas as pessoas que de qualquer modo contribuíram para que aqui chegasse em grande forma, não fosse desperdiçado! O percurso era ao meu gosto, mesmo com subidas de ‘partir o coração’”, explicou. “Trabalhei muito para isto, num ano em que me preparei desde início para esta prova onde podia mostrar o meu valor, a mim próprio e ao mundo!”
“Desde a primeira das 3 voltas percebi que estava andar mesmo forte, ultrapassando vários dos atletas que partiram antes de mim, ao mesmo tempo que via que o Alex Zanardi e o Tim de Vries, dupla que partiu depois de mim e naturais candidatos à vitória, não me estavam a ganhar muito tempo. Também assisti aos saltos do meu treinador, José Marques, a cada passagem minha na meta, quase à beira de um ataque cardíaco, porque se apercebeu de que eu estava no rumo das medalhas, algo também me deu ainda mais força para dar tudo por tudo até ao fim e não deixar escapar a oportunidade”.

De facto ela não escapou, gerando “um turbilhão de emoções. Mais do que ganhar a medalha de bronze num Campeonato do Mundo, foi a forma como o consegui, ficando a apenas 47 segundos do Zanardi, algo que ainda se revestiu de maior importância para mim, pois não há muito tempo eu perdia 5 minutos pra ele neste tipo de prova! E dado que ambos temos apoios e materiais de diferente dimensão, acho que não é preciso dizer mais nada!”
“Estar ali naquele pódio, na competição mais importante do calendário mundial – a par dos Jogos Paralímpicos, claro! – ao lado do homem que todos consideram o maior atleta de sempre no paraciclismo e que foi a minha inspiração para me decidir a praticar este desporto, é surreal!”
Tão surreal que, no dia seguinte, na Prova em Linha com cerca de 60 km partiu de faca nos dentes em busca de novo pódio, “sempre a acreditar que tudo é possível.” Mas nova subida ao pódio fugiu-lhe por pouco, muito pouco, já que terminou com o mesmo chrono do vencedor. “Sim, fui 4º mas terminei no grupo dos melhores, deixando o 5º classificado a mais de 20 segundos!” É caso para dizer que já não falta tudo!

Tudo somado…
O difícil mas recheado ano de 2017 de Luis Costa terminou, assim, com 4 medalhas de prata em provas C1, mais 3 medalhas de bronze em eventos da Taça do Mundo, e a enorme medalha de bronze que trouxe do Campeonato do Mundo. 

“Acabei o ano no 3º lugar do ranking da minha classe na Taça do Mundo e em igual posição no da UCI, apenas atrás desses dois colossos Campeões do Mundo, o Tim de Vries (na Prova em Linha) e o Alex Zanardi (no Contra-Relógio), dois amigos e fantásticos adversários.”
“É uma honra,” sublinha o nosso atleta paralímpico que, pelo 4º ano consecutivo, integra o top 10 mundial da modalidade algo de muito significativo, depois da sua estreia em competições oficiais em 2013: “Dado que em 3 deles acabei nos lugares do pódio, só tenho motivos para estar orgulhoso da minha evolução e super-motivado para tentar fazer ainda melhor nos próximos anos”. 
Um vasto conjunto de resultados que deve ao seu total empenho e dedicação, mas também e significativamente, ao Professor Gabriel Mendes, técnico da Federação Portuguesa de Ciclismo, e ao seu incansável treinador José Marques, para além, claro, do apoio familiar encabeçado pela sua companheira Inês Neves. Outra peça importante é o conjunto de entidades que, à sua medida, o apoiam neste ambicioso projecto, da própria federação ao Comité Paralímpico de Portugal, passando pelo SCP e demais empresas que lhe prestam os mais variados serviços.
E o é que vem a seguir? Há que esperar pelas “cenas dos próximos capítulos”, aqui no Trendy Wheels. Isto porque “o Costa” – como é conhecido pelos amigos – ainda tem algo (muito mais) para dizer…
Cumprimentos distribuídos irmãmente e até breve!
José Pinheiro
Notas:
1) As opiniões acima expressas são minhas, decorrentes da experiência no sector e de pesquisa de várias fontes;
2) Direitos reservados das entidades respectivas aos ‘links’ e/ou imagens utilizados neste texto, conforme expresso.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Paraciclismo I: Luis Costa na elite mundial

O paraciclismo nacional está, uma vez mais, de parabéns! Modalidade que, entre nós, tem crescido em importância e em (alguns) novos representantes, apesar dos diminutos apoios que lhe são dados e à ainda ínfima cobertura que merece das televisões e da imprensa (dita) especializada em acontecimentos desportivos, há um nome que se destaca entre os demais: Luis Costa.

Temática que já aqui abordei no Trendy Wheels algumas vezes, de modo a dar um empurrãozinho à modalidade em termos de visibilidade, bem como ao próprio e às suas pretensões de se tornar Campeão do Mundo, Campeão Paralímpico… ou ambos! Coisa pouca, se pensarmos nos obstáculos bem maiores que, há anos, teve de ultrapassar no domínio pessoal, depois de um acontecimento que – no dia do seu 30º aniversário – o obrigou a repensar toda a sua vida. Mas como desistir não faz parte do seu modo de vida, dedicou-se de corpo e alma ao paraciclismo, definindo como um dos objectivos elevar cada vez mais alto a nossa bandeira nos mastros dos quatro cantos do mundo, expresso nos resultados obtidos além-fronteiras.
“Que nunca por vencidos se conheçam” é um dos lemas de vida deste atleta que, agora com 44 anos, está aí para as curvas e para as rectas, sempre à força de braços com a sua “menina”, numa dedicação sem igual a uma modalidade que já lhe ofereceu enormes alegrias, sempre vistas como mais significativas do que os desaires. A mais recente foi uma medalha de bronze nos Mundiais da África do Sul, em Setembro último, orgulhosamente ocupando um lugar seu por direito no pódio de uma das provas, na companhia de dois dos seus maiores ídolos – o holandês Tim de Vries, vencedor da maioria das provas, e Alex Zanardi, ex-piloto de monolugares (Fórmula 1, Indy, etc) – e também adversários ao longo da presente época.

Voltando ao nosso entrevistado, finda a azáfama de nove longos meses, Luis Costa está presentemente menos activo em termos de presença em provas oficiais, mantendo-se em modo de descompressão de uma época muito exigente mas também saborosa. Foi neste intervalo, entre uma sessão de treinos e as exigências da sua desgastante profissão, que deu uma longa entrevista ao Trendy Wheels.
Tão longa que a tenho de dividir por várias edições, começando, assim pelo balanço de 2017, época que o atleta luso considera ter sido “um grande ano. Estive nos lugares cimeiros em todas as competições internacionais em que participei, batendo-me com os melhores do mundo nas provas de categoria C1 da UCI, depois nos eventos da Taça do Mundo e, por último, no Campeonato do Mundo da África do Sul, em Pietermaritzburg,” resumiu-nos.
Ele que também acumula um palmarés invejável no paraciclismo nacional, colecionando muitas vitórias na sua categoria (H5/Handbikes) e os correspondentes títulos. Um conjunto de resultados “que valorizo igualmente, apesar de continuar a ser o único atleta da minha classe. Encho-me de orgulho pelo facto de, com eles, poder continuar a dinamizar a modalidade em Portugal.”

Quatro pratas a abrir a temporada
À semelhança dos anos anteriores, 2017 voltou a obrigá-lo a um exigente plano de treinos, cuidadosamente elaborado pelo Professor Gabriel Mendes, técnico da Federação Portuguesa de Ciclismo, e contando com os préstimos do seu treinador José Marques: “Diria que o José é o orientador no terreno e o Gabriel é o génio matemático que desenvolve as ‘fórmulas’ que dão origem a campeões”, refere. 

Tudo começou em Abril com uma tripla deslocação a Itália, para duas Taças da Classe 1 e uma mais valiosa Taça do Mundo. No Contra-Relógio da Verola Paracycling Cup houve “num misto de emoções: por um lado fiquei feliz pelo 2º lugar, a escassos 3 segundos do Tim de Vries, por outro com um sabor amargo pela diferença final”. Já a Prova de Fundo pregou-lhe um susto quando “sensivelmente a meio, a pulsação disparou de um ritmo ‘normal’ (em esforço) de 160 batidas por minuto para as 196 bpm, com uma ligeira dor no abdómen. Tendo em conta que o meu tecto máximo é de 173 bpm e mesmo para lá chegar preciso fazer um esforço extremo, prossegui em prova, em agonia mas sem desistir, alcançando nova prata, mas já a 3m29s do vencedor, uma eternidade em relação às expectativas, nomeadamente após a prestação da véspera.”
 “Uma semana depois corri a Brixia Paracycling Cup. Já recuperado, lancei-me estrada fora no Contra-Relógio, obtendo o 2º tempo da minha classe (e também da geral das handbikes) a apenas 35 segundos do Tim, resultado que me deixou muito motivado, significando uma grande evolução da minha parte em relação às épocas anteriores, onde perderia normalmente 1m30s ou mais neste tipo de exercício”. Depois, na Prova em Linha, veio a 4ª medalha de prata do ano, uma jornada“sem ataques frenéticos ou alterações cardíacas anormais. Fui 2º, a 20 segundos do Tim, com um ritmo elevado (média final acima de 35 km/h), controlando os meus restantes adversários, em especial o francês Loïc Vergnaud que deixei a 4 minutos! Foram duas prestações que me deixaram com óptimas expectativas para o que viria a seguir”.
Em meados de Maio viu-se, de novo, por terras italianas, em Maniago, para a primeira prova da Taça do Mundo, prova que o nosso entrevistado resume como “24,3 km de sofrimento, a dar tudo por tudo à procura de um lugar no top-5, algo muito difícil quando se defronta os melhores do mundo”, acrescentando, logo depois, uma nota de que “se fosse fácil não servia para mim”!
Contando com uma grande ajuda no capítulo técnico da Joker 8, roda que a PROTOTYPE Racing Parts, uma das entidades que o apoia, lhe cedeu no ano passado, Luis Costa alcançou esse objectivo… em dobro! Primeiro no Contra-Relógio, “prova que fiz com o coração na boca e a levar com os berros do Seleccionador Nacional que me seguia na viatura, e que me conseguiu ‘ressuscitar’ para terminar forte, apesar do 4º lugar ter fugido por poucos segundos”. Mas também acabou logo à frente do 6º e 7º, Alfredo de los Santos e Oscar Sanchez (dois paraciclistas do Team USA), o último dos quais foi medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio. “Acho que isso diz tudo do nível a que se andou nessa prova. E fazer 24 km com média final de 38 km/h, a ‘pedalar’ com os bracinhos… experimentem!” Na prova em linha, a chegada foi feita ao sprint, com novo 5º lugar e o mesmo tempo do vencedor, jornada em que na fase final “perdi uns metros preciosos que já não consegui recuperar. Faz parte. Sempre a aprender.”


Taças por lá e por cá…
Mas seria na Taça do Mundo de Ostende (Bélgica) que se deparou com o primeiro revés do ano: “Um dia teria que acontecer e foi nessa prova que tive uma avaria mecânica - um dos cabos elétricos do sistema quebrou - logo ao primeiro km do contra-relógio me fez ficar sem mudanças. Fiz os restantes 14 km com a mudança que ficou engrenada, obrigando-me a ‘pedalar’ a grande rotação, lutando contra o vento, sem que pudesse usar os carretos mais leves. Desgastou-me até ao limite das minhas forças e Fiquei de rastos física e psicologicamente, mas estes azares fazem parte da competição”, numa prova onde foi, de novo, o 5º melhor.

Com o contributo de mecânicos tugas improvisados e da equipa francesa Cofidis, que lhe dispensou um cabo eléctrico novo, o problema ficou resolvido e na prova em linha lutou até ao fim pela vitória, “em nova chegada ao sprint onde fui 3º, com o mesmo tempo do vencedor. Fiquei super feliz com essa medalha de bronze, a minha 5ª em Taças do Mundo [nota: obteve 4 de prata em 2016], pois foi conseguida defrontando quase todos os melhores do mundo”, só aqui faltando à chamada o seu ídolo Zanardi. “Percebemos como foi dura a batalha quando comemoramos uma medalha de bronze como se fosse a de ouro,” acrescentou.


Dias depois estava já em Portugal para disputar o 20º Prémio de Viana do Castelo, a sua primeira prova da época em território nacional. “Venci a classe e fiquei satisfeito pelo 2º lugar da geral, numa chegada feita ao sprint com o vencedor, Johnny Marques, da classe D (surdos). Fizemos juntos a quase totalidade da corrida, isolados desde as primeiras voltas, mas as pernas dele foram mais fortes do que os meus braços”.
Seguiu-se a primeira prova da Taça de Portugal em Águeda, em meados de Junho, importante teste antes da ida até à Holanda para o evento final da Taça do Mundo. Numa altura em que Portugal ardia e provocou a tragédia conhecida de todos e que, infelizmente, ficará na história, “a corrida fez-se sob um calor intenso e com um céu encoberto pelo fumo dos incêndios, num percurso rápido mas pouco adequado às handbikes”. A tarde começou com um furo ainda antes das coisas aquecerem, para depois saltar a corrente em 18 das 20 voltas ao percurso, sendo salvo pelo “bendito sistema eléctrico que permite recuperar a corrente facilmente.”


Ficou, assim, concluída a primeira parte de um ano que viria a ter um desfecho impressionante, com todos os condimentos de um episódio de suspense, com sangue suor e (algumas) lágrimas. Aventuras já a desvendar já na próxima edição.
Imagens: Luis Costa, UCI/Andrew McFaden, Fotogliso, Planeta Ciclismo, Vito Cartafalsa, Loredana Colombari, Paratee-Psylos/Setefan Nies, GP ABimota; Quadros: UCI


Cumprimentos distribuídos irmãmente e até breve!
José Pinheiro
Notas:
1) As opiniões acima expressas são minhas, decorrentes da experiência no sector e de pesquisa de várias fontes;
2) Direitos reservados das entidades respectivas aos ‘links’ e/ou imagens utilizados neste texto, conforme expresso.

segunda-feira, 20 de março de 2017

As handbikes de um Campeão

Depois do merecido repouso do guerreiro, após as paralimpíadas do Rio no Verão passado, o paraciclista Luis Costa tem já os objectivos bem definidos para que, em 2020, possa obter ainda melhores resultados no extremo oposto do planeta, nos Jogos Paralímpicos de Tóquio. Há, por isso, um longo caminho a percorrer pelo nosso Campeão Nacional de Contrarrelógio e de Estrada, títulos que o paraciclista luso conquistou em 2016 pelo quarto ano consecutivo, ano em que também ascendeu ao 2º lugar absoluto no ranking mundial da modalidade (Classe H5).

Como companheiras destas aventuras nacionais e internacionais, o atleta do Sporting Club de Portugal tem evoluído, como desportista profissional, apostando em diferentes handbikes, com características adaptadas aos diferentes escalões da modalidade. Tem o hábito de lhes dar nomes, conforme nos confidenciou Luis Costa, na recente entrevista que deu ao Trendy Wheels: 
“A ‘Zingarelho’ foi a primeira, de quando comecei a competir, em Março de 2013, sendo uma handbike em que nos sentamos numa posição inclinada para trás. A partir de Junho desse ano passei para a ‘Rasteirinha’, em que seguia deitado, e a seguir, em Setembro, veio a ‘Lebre’, uma handbike que se conduz de joelhos, fruto da reclassificação que me foi feita pela UCI – estava, na altura, numa classe errada – quando participei pela primeira vez numa Taça do Mundo. A actual começou por ser a ‘Basca’, mas acabei por não interiorizar o nome e na verdade trato-a simplesmente por ‘Menina’”, explica.


Reforcem-se as diferenças significativas entre as várias máquinas usadas no paraciclismo, que podem ser: bicletas de duas rodas, handbikes, triciclos ou tandems. Actualmente o nosso entrevistado usa uma handbike que se integra na Classe H da modalidade e embora seja comum a confusão criada na mente dos menos atentos, as handbikes nada têm a ver com as cadeiras de rodas tradicionais: “O próprio nome é esclarecedor, não sendo, de facto, uma cadeira, sendo que estas são utilizadas nas provas de atletismo, participando em maratonas e em provas de pista, nos estádios. Embora muita gente as confunda pelo facto de também terem 3 rodas, a tracção nas cadeiras de rodas é feita diretamente pelas mãos nos aros das rodas traseiras”.
Imagens: Ottobock (1), Luis Costa – Paraciclista (2), Cycle Style (3), Telmo Pinão (4) Canadian Paralympic Comittee (5)

“Já as handbikes, como a minha, funcionando exactamente como as bicicletas, recorrem a cranks, rodas pedaleiras, carretos e mudanças, tendo como única (e grande) diferença o facto de se operarem com as mãos, em vez dos pés, recorrendo a pedais alternados. Há ainda os triciclos da Classe T, que se pedalam com os pés e que têm 3 rodas”, acrescenta.
A estas há que acrescentar os tandems, com dois selins, utilizados por atletas invisuais e que, por isso, correm em duplas, sendo que o outro atleta – o que vai no selim da frente – não tem qualquer deficiência visual, e as bicicletas tradicionais, mais ou menos adaptadas ao grau de deficiência de cada atleta. 
Voltando às handbikes do entrevistado desta edição Trendy Wheels, se as suas três primeiras tinham o seu quadro de alumínio, a ‘Menina’ tem um novo quadro totalmente em carbono, num conjunto que com as mais recentes evoluções, ao nível das rodas e demais elementos, já resulta num investimento muito significativo. “Quando se quer competir ao mais alto nível, seja nas provas nacionais e internacionais, mas em especial ao nível de um Campeonato do Mundo ou umas Paralimpíadas, é obrigatório haver algum investimento, pois de outro modo não conseguimos usar armas iguais – ou pelo menos equivalentes – às dos nossos adversários.”
Apesar de algumas dificuldades ao nível da angariação de fundos, tal tem-se mostrado possível graças aos apoios que Luis Costa tem obtido, nomeadamente em serviços associados, dos diferentes parceiros com que tem contado ao longo da sua ainda recente carreira, ajudando a completar o bolo do seu próprio investimento individual. “É aos meus patrocinadores e apoiantes que devo parte do que tenho conseguido ao longo da minha carreira e é com eles que quero ir até aos Jogos de Tóquio 2020”.

Mais de 7.000 km na pré-época
Findo o período de descanso e recuperação pós Rio de Janeiro, há muito que Luis Costa regressou aos treinos, num programa intensivo que não só envolve trabalho de ginásio, como a participação em eventos esporádicos – desportivos, solidários e outros – preparativos do que definiu como o seu “Programa Desportivo para 2017”.
Imagem: Algarve Granfondo
Curiosamente há quem pense que a coisa se faz num estalar de dedos, mas naturalmente que não é bem assim, como nos explica: “Há muita gente que regularmente me pergunta se tenho treinado, mas mais recentemente a coisa torna-se ainda mais ‘gira’, ao acrescentarem algo do género ‘agora que o Inverno já passou, já podes voltar aos treinos, não é?’”. Pois… ele tem treinado e não é pouco, pois “entre Novembro de 2016 e agora já terei feito cerca de 7.000 km na bike, isto fora as horas de ginásio, não só físico, como de preparação mental.”
Intercalando os treinos diários e bi-diários, o paraciclista luso da Sporting/Tavira – Paracycling tem participado em provas de pré-época, nomeadamente Minifondos – já esteve no Algarve e em Palmela, estando em agenda o de Almodovar (25 de Março) e o de Évora (9 de Abril) – antes de se iniciar a sua jornada internacional, que prevê eventos em Espanha, Itália, Bélgica, Holanda, África do Sul e Emirados Árabes Unidos, intercalados com as diferentes provas nacionais.
Imagens: Arrábida Granfondo

Os dois primeiros já estão cumpridos e se o primeiro correu sem problemas de maior, tendo alcançado o 5º lugar da geral masculina, já a prova da Arrábida fê-lo passar por uma experiência que nenhum ciclista gosta, pois “fiquei embrulhado numa queda que envolveu vários atletas logo no início da corrida”. Recolando depois ao grupo da frente, fruto do trabalho em conjunto com um grupo de outros atletas, “vi-me depois a braços com a amarga subida final em Palmela, em calçada portuguesa, molhada e escorregadia, com passagem por dentro de um jardim, onde nem conseguia fazer as curvas em cotovelo. Tinha que colocar as mãos no chão para levantar a handbike e fazê-la rodar para conseguir curvar a subir, para depois sair do jardim por uma rua a subir a pique, também em calçada, onde por pouco não comecei a andar... para trás! Enfim, foi uma manhã animada.”
À parte destas peripécias, o paraciclista considera ter sido “um bom teste à minha preparação para a época que se aproxima, fiz o 15º lugar da geral – o 13º foi um senhor ‘desconhecido’ chamado Marco Chagas! – e o 7º do meu escalão. Mais uma demonstração que se consegue fazer coisas interessantes a pedalar com os braços em comparação com os que normalmente o fazem com as pernas”.

À conquista de Portugal e do Mundo
Depois dos Minifondos seguem-se os diferentes eventos, nacionais e internacionais, que irão por à prova toda esta preparação, ajudando Luis Costa a evoluir entre os demais adversários e a rechear a sua vitrina de prémios. Do calendário fazem parte 3 provas da Taça do Mundo, mais o Campeonato do Mundo e a Final do Circuito Europeu, bem como 4 jornadas da Taça de Portugal e os Nacionais de Contrarrelógio Individual e de Fundo, defendendo os títulos de 2013 a 2016. Veja aqui o calendário:
- 22/23 Abril - Verola Paracycling Cup (Itália)
- 29/30 Abril - Brescia Paracycling Cup (Itália)
- 11/14 Maio - Taça do Mundo de Paraciclismo, Maniago (Itália)
- 19/21 Maio - Taça do Mundo de Paraciclismo, Ostend (Bélgica)
- 28 Maio - Taça de Portugal, Viana Castelo
- 18 Junho - Taça de Portugal, Águeda
- 24/25 Junho - Paracycling Bira, Bilbau (Espanha)
- 30 Junho/2 Julho - Taça do Mundo de Paraciclismo, Emmen (Holanda)
- 8 Julho - Campeonato Nacional de Contrarrelógio Individual (Almeirim)
- 9 Julho - Campeonato Nacional de Fundo, Almeirim
- 16 Julho - Taça de Portugal, Albergaria-a-Nova
- 20 Agosto - Taça de Portugal, Alcobaça
- 31 Agosto/3 Setembro - Campeonato do Mundo de Paraciclismo, Pietermaritzburg (África do Sul)
- 28 Outubro - Final do Circuito Europeu de Handbike, Abu Dhabi (EAU)
Destaquem-se os apoios que Luis Costa tem nesta aventura internacional sobre rodas, com especial destaque para a UVP - Federação Portuguesa de Ciclismo e o Sporting Clube de Portugal, clube com quem renovou, recentemente, o seu contrato. As restantes entidades que o ajudam, neste momento, a preparar o seu projecto rumo aos Jogos de Tóquio 2020 são (por ordem alfabética) a Alportil - Concessionário Skoda, Beto Fitness Club, G-Ride Portimão E Faro, Hypno Coaching, Mediessencial - Clínica Médica e Dentária Lda, Os Mosqueteiros, OZ Energia, Sabores Da Ria e Tattoo Studium. Outros serão, decerto, muito bem-vindos!
Imagens (todas as restantes): Luis Costa – Paraciclista 

Cumprimentos distribuídos irmãmente e até breve!
José Pinheiro
Notas:
1) As opiniões acima expressas são minhas, decorrentes da experiência no sector e de pesquisa de várias fontes;
2) Direitos reservados das entidades respectivas aos ‘links’ e/ou imagens utilizados neste texto, conforme expresso.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Sonho É Possível!

Hoje trago-lhe os ecos de um Campeão! O meu convidado é um atleta que sonha um dia tornar-se profissional, alguém que em Setembro andou pelo Rio de Janeiro a defender as cores da bandeira nacional, integrado na elite dos melhores do planeta. Só este ano foi 2º absoluto no ranking mundial de Paraciclismo (Classe H5), fruto dos excelentes resultados obtidos em diversas provas, entre elas o 2º lugar na Taça do Mundo da UCI (Union Cycliste Internationale) e o 1º lugar no Circuito Europeu de Handcycling da EHF (European Handcycling Federation)! Por cá e entre outros resultados de relevo, tem em casa os troféus referentes aos últimos quatro Campeonatos Nacionais de Contrarrelógio e de Estrada!

Foto:  Rodrigo Berton Fotografia e Design
Luis Costa é o nome deste Penta-Campeão Nacional e atleta paralímpico, com o Sporting Clube de Portugal no coração, e profissional numa força policial. Apresenta-se hoje, na primeira pessoa, aos leitor@s do Trendy Wheels, fazendo um balanço desta participação nos Jogos do Rio 2016. “Nasci em 1973 em Castro Verde, mas vivo mais a sul, no Algarve. Sou atleta de paraciclismo e corro numa handbike em posição de joelhos, integrando, por isso, a classe H5 da modalidade”.

Fruto das vicissitudes da vida, viu-se amputado de um membro inferior, mas soube, como poucos, enfrentar o destino e dar a volta por cima, chegando hoje a um patamar onde muito poucos lusos alguma vez estiveram, ombreando taco a taco com os seus ídolos. “De facto, estes Jogos do Rio foram, para mim, o culminar de todo um projecto que se iniciou em 2013, quando passados apenas uns meses desde que me iniciara na competição, percebi que o sonho era possível, que tinha condições para ser ambicioso ao ponto de vir a representar Portugal nesta competição.”

Fotos: Luis Costa e UCI


Sendo comum vê-lo de norte a sul do país, em diversas provas e eventos, foi nos pretéritos Jogos do Rio 2016 que o seu nome se tornou mais evidente, ao integrar o grupo de qualificados para as Finais das provas de Contrarrelógio e de Estrada. Ali obteve dois honrosos 8ºs lugares, posições que lhe valeram os correspondentes diplomas paralímpicos mas, mais importante do que isso, foi, para ele, integrar um grupo onde também andam dois monstros do paraciclismo, o sul-africano Ernst Van Dyk e o italiano Alex Zanardi, em tempos piloto profissional de automobilismo. “Descobri a paixão pelo paraciclismo fruto do mediatismo em volta deste homem nos Jogos de 2012, em Londres. No pequeno-almoço antes da prova de fundo deste ano tivemos uma breve conversa que me deixou de peito inchado pelas palavras que ele, o grande Alex Zanardi, me disse. Horas depois tive a ambição – ou ousadia, como lhe quiserem chamar – de o tentar bater, a ele e a outros fenómenos como ele. Não o consegui, mas tentei até ao último watt das minhas forças. É esta a beleza do desporto de alta competição, é permitido ao comum dos mortais sonhar comparar-se aos deuses.”

E como nasceu esta vontade de estar no Rio? “Logo nas primeiras provas da Taça do Mundo de 2014 fiquei convicto, pelos resultados alcançados, que conseguiria chegar ao Rio em 2016, pois tinha condições físicas para o fazer. Apenas precisava que a Federação Portuguesa de Ciclismo acreditasse em mim e me levasse ao maior número de provas internacionais possíveis, para obter os pontos suficientes para garantir uma vaga para Portugal. Consegui-a no final de 2014, pelo que o sonho começou a tomar a forma de realidade e, daí para a frente, foi só evoluir o máximo possível para chegar ali ao Rio e lutar com os melhores do mundo pelas medalhas. Lutei com todas as minhas forças por um lugar no pódio mas não o consegui. Andei na cabeça da corrida e, no final, fiquei a apenas 7 segundos do agora Campeão Paralímpico! Há um ano atrás não o teria conseguido certamente.”
 
Foto: Carlos Alberto Matos/IMAPRESS/CPP; Classificações e Logótipos: Rio 2016
Num período de apenas 3 anos, de 2013 a 2016, é um orgulhoso Luis Costa que afirma ao Trendy Wheels ter passado “de um principiante que idolatrava o Alex Zanardi a um atleta que lhe morde os calcanhares e que não hesitará em batê-lo à mínima oportunidade. A ele e a mais meia dúzia como ele que são a elite da minha classe a nível mundial, um grupo muito restrito ao qual eu também pertenço sem qualquer sombra de dúvida. Por isso, de um modo simples, os Jogos representaram para mim o carimbo de confirmação do meu estatuto de atleta de topo.” 

“Ser 2º na geral da Taça do Mundo e acabar o ano como 2º no ranking mundial, em ambos os casos atrás do homem que acabou por se sagrar Campeão Paralímpico, são motivos para me sentir orgulhoso, nunca frustrado. E dá-me motivação para trabalhar mais e mais e mais, para, quem sabe, um dia ser o 1º do mundo! Dizem que o 2º é o primeiro dos últimos… talvez o seja, mas quantos atletas em Portugal vão acabar 2016 nessa posição do ranking mundial?”

Foto: Carlos Alberto Matos/IMAPRESS/CPP;
E agora? “Agora, depois de uns (poucos) dias de descanso, estou já a trabalhar na condição física e também a ver que entidades estão disponíveis para me ajudarem a começar a preparar os Jogos de Tóquio de 2020!”

Quanto à handbike, companheira de aventuras de Luis Costa do outro lado do Atlântico, os seus segredos ficarão para uma próxima edição!

Cumprimentos distribuídos irmãmente e até breve!

José Pinheiro

Notas:
1) As opiniões acima expressas são minhas, decorrentes da experiência no sector e de pesquisa de várias fontes;
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